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Carta aberta da Rede Global de Religiões pela Criança para o Papa Francisco I, em sua visita à América Latina

À Sua Santidade

Francisco

Cidade do Vaticano

Querido Santo Padre Francisco,

Com alegria e esperança recebemos a sua visita em nosso continente latinoamericano. Nós te agradecemos  por ser uma fonte de luz e inspiração para milhares de pessoas, que como nós, lutam pelos direitos e a dignidade cada criança. Com a sua chegada, nos sentimos renovados na fé e no espírito para continuar acreditando que um melhor mundo é possível.

Nesta ocasião, nós o convidamos para apoiar nossas iniciativas a favor das crianças desta região maravilhosa.

Nós somos parte da Rede Global de Religiões pela Criança (GNRC, em ingles) que nasceu no ano 2000 como uma iniciativa da Fundação Arigatou Internacional e com o apoio da Santa Sé. A missão da GNRC é promover uma aliança global de organizações religiosas e pessoas de fé e de boa vontade em diálogo, oração e ação, para defender os direitos e o bem estar das crianças.

A América Latina e o Caribe, infelizmente, tem um cenário de violências extremas que afetam de maneira descomunal as crianças, adolescentes e jovens. É a região com a maior proporção de vítimas de homicídios menores de 20 anos (UNICEF, 2014), e níveis muito altos de "disciplina violenta"  utilizadas em âmbito famíliar. Neste sentido, como GNRC, os nossos esforços na região estão voltados especialmente para a prevenção e eliminação das diversas formas de violência que afetam as crianças.

Acreditamos firmemente que nenhuma forma de violência é justificável e que toda forma de violência é evitável. Portanto, por meio do nosso trabalho voluntário, assumimos um forte compromisso de promover a espiritualidade nas crianças, junto com valores não violentos, conscientizando a população para transformar as atitudes que aceitam e consideram normal a violência contra as crianças, conforme uma das 12 recomendações gerais do Estudo das Nações Unidas sobre Violência contra a Criança (2006). Consideramos o empobrecimento, a desigualdade social e a exclusão como situações profundas da violência, com causas e soluções.

Na base do que fazemos está o trabalho com a família, a convicção da importância do trabalho na primeira infância, e a ênfase em um sentido de participação e cidadania entre as crianças e jovens para construir uma cultura de paz. Trabalhamos por meio da implementação de programas de Educação Ética e Promoção dos Direitos da Criança. Celebramos de maneira especial o dia  20 de novembro, aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança. Esta data para nós é também o Dia Mundial de Oração e Ação, um dia em que todas as pessoas de fé reafirmam para as crianças, como sujeitos de direito, um compromisso com a prevenção e eliminação da violência contra as crianças, e esta é  uma grande oportunidade para aumentar a consciência deste desafio.

Nós o convidamos para celebrar conosco este data e apoiar expressamente esta iniciativa junto às comunidades católicas da América Latina e do mundo.


Oramos por você e seus esforços, para que toque o coração das pessoas que podem fazer grandes mudanças em nossas sociedades:

• Os líderes religiosos e espirituais do mundo, para que façam uso de sua extraordinária autoridade moral e espiritual para esclarecer  interpretações equivocadas de textos sagrados, usados para perpetuar a violência contra crianças ou as desigualdades de gênero;

• Os políticos e líderes de opinião, para que invistam esforços e recursos para construir sociedades mais justas e equitativas; priorizando, em suas políticas públicas e orçamentos, o investimento na infância, e no respeito aos compromissos  assumidos por meiro da ratificação das convenções internacionais de direitos humanos.

Pedimos-lhe que com o seu carisma e autoridade moral e espiritual,  ilumine os pais e mães sobre a necessidade de utilizar, em todas as fases, uma disciplina positiva  e assertiva com seus filhos e filhas, baseada no amor,  boa disciplina e no bom trato.

Apesar de oito países da região proibirem na sua legislação os castigos corporais em todos os ambientes, infelizmente, a prática ainda é comumente aceitada.

Nós pedimos para que sejas o porta-voz das mensagens de esperança para todas as crianças e adolescentes, para que tenham  fé em um mundo de paz e justiça e se convertam em agentes de mudança em seu próprio ambiente.

Agradecemos e reconhecemos as suas conversações e intervenções para estabelecer as relações diplomáticas entre os EUA e Cuba. Ao mesmo tempo fazemos um chamamento para que as comunidades religiosas do mundo contribuam para o fim definitivo do embargo a este país irmão; e ver, nos resultados dos cuidados voltados para as crianças em Cuba, um compromisso com os direitos todas as crianças, que não podem desaparecer, mas afirmar-se nos anos que virão.

Finalmente, queremos agradecer-lhe imensamente pela sua abertura ao diálogo ecumênico e inter-religioso. Reiteramos a importância das religiões e espiritualidades unirem suas forças na busca de espaços e estratégias para lutar contra a pobreza e  violência que afeta muitas crianças em nossa região. Muito além das diferenças de credo, doutrina e práticas religiosas, todas as religiões e crenças professam o respeito pela vida humana e ensinam a compaixão, a igualdade, a equidade, a justiça e a não-violência como princípios essenciais para a convivência social.

Com humildade, pedimos-lhe que continue com seu forte apelo à unidade e cooperação inter-religiosa, convidando as comunidades religiosas da região, especialmente a Católica, para se juntar a nossa missão e esforços, para que a construção do desejado Reino de amor, paz e justiça se converta em realidade.

Que a Divindade Suprema ilumine a sua missão e seja testemunha de seu compromisso com as crianças e adolescentes, especialmente os mais pobres e marginalizados.

Por la Red Global de Religiones a favor de la Niñez en América Latina y el Caribe:

Mercedes Román (Asesora GNRC-LAC), Silvia Mazzarelli (Gerente de Programas GNRC-LAC), Ana Velilla De Medio (GNRC Argentina), Clovis Boufleur (GNRC Brasil), Víctor Rey (GNRC Chile), Myriam Pinto De Ariza (GNRC Colombia), Greta Montoya Ortega (GNRC Cuba), Marco Laguatasí (GNRC Ecuador), Larry Madrigal (GNRC El Salvador), Misael Méndez (GNRC Guatemala), Isis Navarro (GNRC Panamá), Eric Gómez (GNRC República Dominicana).